
O interno T.A.C., de 19 anos, da Fundação Casa Anhangüera (antiga Febem), em Campinas, sempre teve um sonho: ingressar numa universidade. Penúltimo filho de uma família de mais cinco irmãos, não conseguiu conquistar isso em liberdade, mas há menos de um mês recebeu uma surpresa que dá inveja em muita gente. T. se tornou o primeiro interno, desde a inauguração da Casa, em 2006, a passar num vestibular de uma universidade pública, a Estadual Paulista (Unesp). E mais: passou no curso de engenharia ambiental da Universidade São Francisco (USF) e no curso técnico de química da Escola Técnica Estadual Conselheiro Antônio Prado (Etecap). Ele conseguiu aprovação nas três instituições que prestou vestibular.
As colocações do interno nos vestibulares também surpreendem. T. foi aprovado em 4 lugar no vestibular da USF, dispensou o bônus na nota do vestibulinho do Etecap, que teria por direito por ter estudado sempre em escola pública, e ainda desbancou outros nove candidatos pela vaga com a aprovação para o curso de geografia da Unesp, em Ourinhos.
A rotina do jovem, que pouco antes de se tornar interno na Casa girava no mundo das drogas e da criminalidade, se transformou após a aprovação nos vestibulares. Hoje, ele troca a camiseta de algodão branca e a bermuda amarela — uniforme da fundação — pelo jaleco branco e pelos livros no curso de química da Etecap, onde preferiu estudar por ser mais próximo de sua casa e família. “Abri mão do curso de geografia na Unesp por falta de acessibilidade e por ser longe de casa. Além disso, conseguirei mais campo de trabalho aqui em Campinas”, explicou o interno. Ele também descartou o ingresso na faculdade de engenharia ambiental, na USF, porque o curso não formou turma nesse meio do ano.
Apesar de ser amante do meio ambiente e se dar muito bem na área de Exatas e com a disciplina de geografia, o adolescente optou pela química no colégio técnico também pensando nas possibilidades profissionais. “Acho que teria mais campo de trabalho aqui na cidade nessa área. Estou pensando no meu futuro e no futuro da minha família”, afirmou o interno, que atualmente fabrica bonecas e vende na escola para ajudar nas despesas da casa da mãe.
Mas a aprovação nesses três cursos não caiu do céu. Ele era o único dos 112 internos (capacidade máxima do local) da Fundação Casa que tinha completado o Ensino Médio e, por bom comportamento, ganhou a confiança da direção do local, que conseguiu matriculá-lo no cursinho pré-vestibular Educafro, destinado para afrodescendentes e jovens carentes. “Fazia cursinho todos os sábados e durante a semana também revia as matérias com os professores que dão aula aqui dentro. De manhã, estudava e lia sozinho. À tarde, entrava na sala de aula com outros internos e tirava minhas dúvidas. Foi um trabalho em conjunto”, contou o interno, que pretende sair dali em breve, arrumar um estágio e dar uma vida melhor para a mãe e para a filha adotiva, de 6 anos. “Só reprovei o 3 ano do Ensino Médio por falta. Quando entrei no mundo do crime, desisti da escola e fui muito repreendido pela minha mãe, que sempre me incentivou nos estudos. Agora, chegou minha vez de incentivar outras pessoas e servir de exemplo. Se a gente não estudar, a gente não é ninguém”, acrescentou.
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