Quem passa à noite pelo Largo São Benedito, na região central de Campinas, encontra o maior reduto de travestis da cidade. O ponto fica bem no meio de uma área residencial e comercial valorizada, encravado entre as avenidas Moraes Salles e Aquidabã e perto do Bosque e do Cambuí. O local chega a receber dezenas de travestis em uma mesma noite, o que incomoda os moradores e pessoas que passam pela área.
O Largo de São Benedito é uma espécie de praça delimitada pelas ruas Boaventura do Amaral, Duque de Caxias, Cônego Cipião e Irmã Serafina. A Rua Riachuelo, que “cruza” o largo, também integra a região. A reportagem esteve no local na noite do dia 6 de agosto e encontrou cerca de 30 travestis fazendo ponto no local. Eles estavam espalhados por toda a área, mas se concentravam principalmente nas esquinas das ruas Boaventura do Amaral e Duque de Caxias. Durante a visita, que levou cerca de 50 minutos, não foi visto nenhum carro da polícia.
O quarteirão da Rua Riachuelo entre a Luzitana e a Irmã Serafina, escuro e largo, com espaço de estacionamento para veículos, é usado como motel a céu aberto bem no meio da cidade, atrás da Casa de Saúde. É ali que os travestis levam seus clientes que não querem ir a motéis, hotéis ou drive-ins ou que estão “com pressa” ou “sem dinheiro”. Enquanto esteve na área, a reportagem flagrou pelo menos dois veículos que estacionaram por alguns minutos para a realização de programas no local.
Num dos casos, um Peugeot preto com placas de Campinas parou do lado direito de quem trafega pela Rua Riachuelo, às 21h49. Ninguém desceu do carro. As luzes ficaram apagadas o tempo todo. Era como se não houvesse ninguém no veículo. Às 21h57, oito minutos depois, o carro saiu do local. Parou na esquina com a Irmã Serafina. Um travesti desceu e, em seguida, voltou a se posicionar na mesma esquina, à espera de um novo cliente.
Também na escuridão da Riachuelo a reportagem flagrou dois travestis se exibindo, seminus, na calçada. Por ser escura, a rua é mais discreta que o largo iluminado, e acaba sendo usada como vitrine de exibicionismo.
O largo fica ao lado da Casa de Saúde, um dos principais pontos de atendimento de emergência da cidade no período da noite, e da Igreja de São Benedito, uma das mais tradicionais de Campinas. Há também na região prédios residenciais onde vivem centenas de famílias e inúmeras casas.
O fluxo de veículos na noite da visita da reportagem foi intenso. Em cinco minutos cronometrados, passaram só pela Rua Irmã Serafina 41 veículos (média de oito por minuto) que vinham da Moraes Salles ou da Rua Riachuelo.
CAMILA, 22 DE ANOS, SE VENDE PARA COMPRAR SEIOS DE SILICONE
Camila, travesti de 22 anos, vai todos os dias ao Largo São Benedito à procura de clientes para programas sexuais. São quase dois anos de ponto fixo no local, considerado o principal reduto de transexuais de Campinas. “Ela” afirma que consegue em média quatro clientes por noite e que fica na rua entre 20h e 1h.
O valor dos programas gira em torno de R$ 20,00 e R$ 40,00, dependendo do local onde vai ser feito e do “gosto” do cliente. Com os números, é possível concluir que ela consegue tirar, todo mês, R$ 3,6 mil se trabalhar todo dia e fizer dois programas de R$ 20,00 e dois de R$ 40,00. “Prefiro não falar de dinheiro. Estou guardando para colocar seios de silicone e me tornar ainda mais parecida com uma mulher”, disse, quando indagada pela reportagem sobre seu trabalho.
A conversa abaixo aconteceu antes de a reportagem se identificar.
Agência Anhangüera – Boa noite.
Camila – Boa noite.
O que você está fazendo por aqui?
Eu faço programa.
Você é mulher ou travesti?
Sou travesti (rindo).
Como funciona?
Eu cobro R$ 20,00 por sexo oral e R$ 40,00 o programa completo.
E onde a gente iria?
Podemos ficar no carro ou ir a um drive-in.
No carro?
É, aqui atrás tem uma rua escura onde ninguém incomoda.
Mas não tem perigo?
Não, todo mundo sabe que a gente usa aquele lugar pra isso, e ninguém atrapalha.
Os vizinhos não se incomodam ou reclamam?
Eu não faço nada para incomodar eles. Mas sei que tem alguns travestis que exageram, e isso atrapalha.
E a polícia?
Eles quase nunca passam aqui. Mas e aí, vamos fazer?
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